Deep Nude: especialistas de SC falam sobre perigos do aplicativo que “tira” roupa das mulheres

Que a inteligência artificial (IA) tem revolucionado profissões e transformado o mundo não é novidade. Mas o que pode acarretar tantos benefícios para a humanidade, também pode criar artifícios perigosos, inclusive para uso criminoso. Exemplo disso é um aplicativo que tem dado o que falar: o Deep Nude. O app é capaz de recriar partes íntimas do corpo das mulheres em fotos e, assim, expor uma falsa nudez.

O Deep Nudes é capaz de deixar imagens de pessoas vestidas, sem roupa

Aplicativo que promete “nudes convincentes” vira motivo de preocupação – Foto: Freepik/ND

O site MotherBoard tem investigado essa ferramenta desde que apareceu, em 2019. Na época, o desenvolvedor da ferramenta, que não foi identificado, decidiu parar de vendê-lo sob o argumento de que “o mundo não estava preparado para tal tecnologia”.

Mesmo assim, após ter sido apagado, o jornal espanhol El País apontou que desde então surgiram outros 96 aplicativos similares prometendo “nudes convincentes”.

Além disso, o aplicativo só funciona de “forma convincente” se utilizado em fotografias de mulheres. Se o usuário carregar a fotografia de um homem, o aplicativo automaticamente recria seios femininos e vulva, logo, a farsa e desmascarada.

Assim, a preocupação gira em torno da criação de imagens sem prévio consentimento, do vazamento de fotos falsas e da disseminação de conteúdos pornográficos.

Como se proteger da Deep Nude

Analista de sistemas e especialista em computação forense e cibersegurança, Georgia Maria explica que por ser um aplicativo que usa técnica de IA para recriar a imagem da pessoa sem roupa, principalmente mulheres, alguns cuidados devem ser tomados.

Primeiro a conscientização de que uma imagem pode ser falsa. Ou seja, ao se deparar com imagens reveladoras de alguém, é importante sempre questionar se aquilo é ser real. “Não devemos acreditar em tudo o que vemos. Toda aquela antiga lógica do ‘eu só acredito, vendo’, deve ser excluída do imaginário coletivo”, explica Georgia.

Ela acrescenta ainda que a principal forma de se proteger é ter cautela. Ou seja, cuidado com todas as fotos postadas nas redes sociais. Ainda segundo a especialista, imagens com pouca roupa são mais fáceis de serem manipuladas. Além disso, vale evitar publicar fotos de corpo inteiro, opte por aquelas que mostre somente seu rosto.

Outra conselho de Georgia é manter as redes sociais fechadas. Assim, você terá um controle maior de quem te acompanha na web. E para você saber se foi vítima desse tipo de montagem é importante fazer buscas no Google com as suas fotos. “O servidor tem uma função que permite que você encontre qualquer imagem publicada que tenha o seu rosto”, explica.

Veja como buscar fotos com o seu rosto no Google:

Passo a passo: aperte neste ícone na direção da seta. Na sequência abrirá uma caixa de diálogo visível à direita. Então, você poderá colocar qualquer imagem do seu rosto. Assim é possível descobrir se há alguma montagem do fake publicada na web – Foto: Divulgação/ND

Infelizmente ainda não há meios tecnológicos para evitar o uso das imagens para esse tipo de montagem. Porém, segundo Georgia, a forma mais eficaz de não se tornar vítima é seguir esses comportamentos “à risca”.

Deep Nude e ações criminosas

Segundo Patrícia Zimmermann, coordenadora das DPCAMIs (Delegacias de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso), ainda não existe nenhum caso de montagem fake de imagens denunciado em Santa Catarina.

De acordo com o Código Penal, quem realiza montagens em fotos, vídeos, áudios ou qualquer outro registro com o objetivo de colocar uma pessoa em cena de nudez ou ato sexual pode ser submetido à pena de seis meses a um ano de prisão, além de multa.

No Brasil, o artigo 1º da Lei Maria da Penha tipifica o crime como violência doméstica e familiar, além de violência psicológica, por violar a intimidade das mulheres. É importante que as vítimas denunciem nas delegacias especializadas em crimes digitais ou em ocorrências cometidas contra mulheres.

Como o Deep Nude pode afetar a saúde mental das mulheres

Segundo a psicanalista Cris Pereira esse tipo de aplicativo reforça a sensação de insegurança e de medo nas mulheres. Isso porque o abusador que utiliza esse tipo de tecnologia tem uma única intenção: “prejudicar por vingança ou por ter sido rejeitado”, afirma.

“As mulheres devem se preocupar é com a busca pelo seu fortalecimento, pelo amor próprio e pela segurança”, comenta Cris. “Homens que utilizam esse tipo de ferramenta contra mulheres do seu círculo social muitas vezes querem se aproveitar da vulnerabilidade e até mesmo da dependência emocional da vítima”, completa ela.

Para as mulheres vítimas desse tipo de crime, a sensação é de impotência, insegurança, vergonha, culpa e medo. Por conta do sentimento, a psicanalista ressalta que esse tipo de violência traz muitos traumas emocionais.

Diante da linha psicológica, Cris aconselha que as vítimas devem procurar o apoio de pessoas de confiança, como a família, amigos, advogado e das medidas legais.

“Também é fundamental a busca por terapia para o fortalecimento psíquico e emocional. Dessa forma, a vítima pode, inclusive, evitar efeitos piores, como a depressão“, finaliza.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.