A reinvenção da indústria carbonífera: SC se destaca em pesquisas que utilizam cinzas de carvão

É pelos trilhos do trem que o carvão extraído das minas do Sul do estado chega até a termoelétrica em Capivari de Baixo. No local, a queima do mineral produz energia elétrica há quase 60 anos, sendo até hoje uma importante geradora, não só para Santa Catarina como para todo país.

Cinzas de carvão são usadas como fertilizantes em Santa Catarina – Foto: Reprodução/NDTV Record/ND

Com as intempéries climáticas, contar somente com as fontes renováveis, como solar, eólica e hidrelétricas, não é possível. Só no ano passado, a usina Jorge Lacerda foi acionada por diversas vezes para garantir a geração de energia elétrica e não acontecer nenhum desabastecimento.

O que faz do complexo um instrumento importante para não faltar luz e garantir a segurança energética, além de ser um pilar significativo para a economia do sul do estado. São mais de 20 mil empregos que de alguma forma estão conectados a atividade. A produção de cimento é uma delas. As cinzas de carvão que sobram da queima para transformação de energia vão para a indústria que agrega na composição ajudando a reduzir o uso do clinquer, um dos materiais mais poluentes do cimento.

Além disso, uma boa parte das cinzas do cimento tem ido para pesquisas. Na Satc, em Criciúma, ela vem sendo testada de diferentes formas. Na captura de CO2 para implantação nas usinas termoelétricas, contribuindo para descarbonização das operações. E no campo, como substituto aos fertilizantes.

Com as cinzas de carvão a Satc tem produzido zeolita. Um mineral que pode ser encontrado na natureza com alto poder de absorção. Mas, no laboratório, elas são feitas de forma sintética com uma capacidade semelhante ao natural e depois testadas em plantas. A pesquisa analisou algumas espécies em ambiente controlado, agora está na lavoura. Mais de 4.300 pés de milho estão recebendo as zeolitas como substituição aos fertilizantes.

Pesquisas de SC em destaque no Brasil

São essas pesquisas que dão uma nova utilidade as cinzas do carvão que foram vistas de perto pelos assessores de programas estratégicos do Ministério da Agricultura. A visita ao centro tecnológico da Satc foi para mostrar os avanços de Santa Catarina nos estudos que possam contribuir com a transição energética.

Para o diretor-executivo da Satc, os estudos estão ajudando a mostrar que é possível reinventar a indústria do carvão, através da produção de outros materiais e focado na segurança alimentar.

“No momento que o Brasil está buscando reduzir os custos dos alimentos, o que nós estamos fazendo aqui na Satc é um passo importante para produzir fertilizantes nacionais, com produtos nacionais, originários da cadeia produtiva do carvão. Vem das cinzas da termelétrica para transformar em fertilizantes. E a própria termelétrica produzir fertilizantes com os seus gases, isso é algo que o carvão pode trazer, então é uma reinvenção da indústria olhando o net zero que é a gente ter carbono neutro em 2050. E tudo isso é um processo para conseguir chegar no desenvolvimento de tecnologia e assim a gente consegue viabilizar uma nova economia pra região sul e para Santa Catarina”, explica Fernando Zancan.

Pesquisas que dão nova utilidade as cinzas do carvão foram vistas de perto pelos assessores de programas estratégicos do Ministério da Agricultura – Foto: Reprodução/NDTV Record/ND

Os avanços de Santa Catarina nas pesquisas chamou atenção do país. E até por isso, o assessor do Ministério da Agricultura convidou a Satc para integrar o projeto do governo federal que buscar criar um centro de excelência de fertilizantes para reduzir a dependência externa do país em fertilizantes químicos, aumentar a presença de bioinsumos na agricultura e disseminar o uso de compostos mais apropriados ao solo tropical, a partir de tecnologias desenvolvidas no país.

Reinvenção da indústria com as cinzas de carvão

Segundo José Carlos Polidoro, o Brasil é campeão mundial de produção agrícola e continuará sendo um grande contribuinte para diminuição da segurança alimentar do mundo.

Nas cinzas do carvão pode estar a alternativa para redução de custos nas lavouras com fertilizantes – Foto: Reprodução/NDTV/ND

“Por isso, vamos fazer o que a FAO espera de nós e colocar 40% a mais de alimento para o mundo, mas isso será muito próximo de uma neutralidade da emissão de carbono, com o mínimo que a gente conseguir. E principalmente sem a necessidade de desmatamento legal ou ilegal de nenhum hectare de floresta ou serrado ou Mata Atlântica ou qualquer que seja a vegetação nativa”, detalha o assessor da secretaria executiva Mapa.

Polidoro completa que esse é um dos motivos de a equipe ter visitado Santa Catarina.

“Estamos no nono estado para criar um hub porque o governo federal não tem nenhuma chance de conseguir êxito sem a parceria com os governos estaduais em programas de estado, independente de partido político, a gente tem programa de estado e o plano nacional de fertilizantes é um deles”.

O convite vem para impulsionar ainda mais o propósito dos últimos anos que está em reinventar a indústria do carvão do sul de Santa Catarina. A região já vem mostrando bons resultados nas pesquisas e que é possível fazer uma transição energética justa com investimentos, estudos e com foco num novo futuro.

“O Ministério da Agricultura vindo olhar, ver o desenvolvimento tecnológico, olhar o produto e a gente montar uma parceria para trabalhar em conjunto com redes de ciência, tecnologia e inovação ligado ao agronegócio, isso é muito importante para gente”, finaliza Zancan.

 

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