Expedição do Exército homenageia vítimas do desastre aéreo no Morro do Cambirela, em Palhoça

O 63º BI (Batalhão de Infantaria) do Exército, em Florianópolis, prestou uma homenagem às vítimas do desastre aéreo de 1949, quando o avião da FAB (Força Aérea Brasileira) Douglas C-47 2023 não venceu o Morro do Cambirela, em Palhoça.

O acidente vitimou 28 pessoas e foi considerado o maior desastre aéreo do País, até 1980.

Desastre aéreo no Cambirela vitimou 28 pessoas em Palhoça, há 74 anos

Placa implantada no alto do Morro do Cambirela homenageia os envolvidos no maior desastre aéreo do País ao longo de muito tempo – Foto: Leo Munhoz/ND

O dia 6 de junho nunca mais foi o mesmo depois do episódio que completou, nesta terça (6), 74 anos. Também por isso o Exército Brasileiro prestou uma homenagem às vítimas da tragédia, bem como aos militares envolvidos na busca e resgate daquela que ainda é considerada a maior operação militar do Sul do Brasil.

Movidos em tamanho recorte histórico, o comando do BI se deslocou até o alto do gigante Cambirela – que tem 1.043 metros – para inaugurar uma placa, hastear uma bandeira e fazer as devidas condolências aos envolvidos em um desastre que abalou o Brasil ao vitimar 6 tripulantes e 22 passageiros, sendo 11 militares e 9 civis.

“A gente tem a oportunidade de lembrar esse feito que ocorreu em 1949 e, na época, foi considerado a maior operação de busca e salvamento, de vítimas de um desastre aéreo realizado no Brasil”

“A gente tem a oportunidade de lembrar esse feito que ocorreu em 1949 e, na época, foi considerado a maior operação de busca e salvamento, de vítimas de um desastre aéreo realizado no Brasil. […] Acima de tudo a gente está tendo a oportunidade de perceber a bravura desses militares e o sentimento de solidariedade com todas as vítimas, os familiares para tentar chegar aqui e resgatar todas as vítimas para que tivessem dignidade junto aos seus entes”, destacou o comandante do 63º BI, coronel Sandro de Nazareth Ciribelli.

O Grupo ND acompanhou a escalada para contar um pouco do que foi o cenário de terror vivido pelos envolvidos na tragédia.

74 anos do desastre aéreo

O mês de junho de 1949 absolutamente nada tinha a ver com o que se constata 74 anos depois, no Cambirela. Ao contrário do céu limpo e iluminado que vem predominando nas últimas semanas nessa reta final de outono, o clima da época tinha mais semelhança com os dias de inverno.

Comandante do 63º Batalhão da Infantaria, em Florianópolis, coronel Sandro Ciribelli – Vídeo: Diogo de Souza/ND

Na data do desastre, por exemplo, a Grande Florianópolis vivia sob muita chuva e muito frio. De acordo com o registro trazido no livro O Último Voo do C-47 2023, de Silvio Adriani Cardoso, a região da capital de Santa Catarina contabilizara três dias de chuva torrencial.

Há o entendimento que, apesar da pouca estrutura da época, a tragédia foi fruto das intempéries e de todas as dificuldades impostas pelas adversidades do clima.

Era uma segunda-feira, por volta das 13h50, quando o comandante da aeronave, que tinha saído do Rio de Janeiro e destinava-se a Uruguaiana, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, decolou do aeroporto Hercílio Luz em direção ao norte, tangenciando para a esquerda – como de praxe – tomando o sentido oposto rumo à parada seguinte, em Porto Alegre.

O avião pertencia ao 2º GT (Grupo de Transporte) da FAB, era do CAN (Correio Aéreo Nacional), fazia o trajeto costumeiramente e carregava a matrícula 2023. Menos de dez minutos depois de levantar voo comunicou à torre de controle que tinha dificuldades devido às más condições climáticas.

Foi o último contato com os controladores de voo, em Florianópolis, instantes antes de se chocar contra a chamada Pedra da Bandeira, já no alto do morro, e  se esfarelar na encosta do Cambirela, a mais de 800 metros acima do nível do mar.

Expedição simulada

Foram 25 horas, mais ou menos, desde o momento da queda da aeronave até a chegada do resgate no local. Depois da confirmação do desaparecimento da aeronave, ainda na chuvosa tarde do dia 6 de junho, coube ao então 14º Batalhão de Caçadores – atual 63º BI – liderar essa expedição para prestar todo o auxílio às vítimas e seus familiares.

“É preciso atitude para vencer a altitude”

Ainda de acordo com os registros, a operação, desde a saída do quartel até a chegada no ponto, recolhimento dos corpos e identificação dos envolvidos, durou quatro dias.

“Foram quatro dias até aqui, as condições meteorológicas eram muito tensas, era um princípio de inverno rigoroso, as condições de visibilidade eram muito ruins, além de todo o desgaste físico e sobre-humano para subir aqui. […] Tivemos a oportunidade de percorrer esse caminho e, acima de tudo, a gente fica muito feliz de pertencer a essa equipe que, há quase 75 anos recebeu esse chamado e que fez com muita coragem e determinação. Nos orgulha e estar aqui é a oportunidade de relembrar esses militares que resgataram as vítimas”, acrescentou o coronel Ciribelli, já no alto do Cambirela.

Para a realização dessa expedição que simulou o resgate do desastre aéreo, um grupo com 45 militares – sendo 43 homens e 2 mulheres – saiu do batalhão, no bairro Estreito, região continental, até a região denominada Guarda do Cubatão, onde iniciou a escalada de homenagem.

Subida do Morro do Cambirela soma quase 900 metros acima do nível do mar – Foto: Leo Munhoz/ND

Foram cerca de 3,5 horas para percorrer os 880 metros morro acima. Toda a equipe levou, no total, mais de sete horas para fazer a simulação de subida, resgate dos corpos e descida.

“Imagina fazer tudo isso sem conhecer nada, com uma roupa muito mais pesada, em meio a chuva e afundado no sentimento e na dúvida de encontrar sobreviventes ou não”, sugeriu, em meio a trilha de subida, um soldado de 22 anos.

Já o comandante Ciribelli lembrou dois lemas para a conclusão do trajeto: “É preciso atitude para vencer a altitude”, e ainda, “o negócio é subir como velho para descer como novo”.

43 homens e 2 mulheres

A expedição que consolidou a simulação do salvamento e resgate das vítimas do Douglas C-47 foi montada a partir de uma equipe entre 43 homens e 2 mulheres. O número é bem inferior ao grupo designado a fazer a operação em 1949: ao longo dos quatro dias, 350 militares estiveram envolvidos em episódio que parou o País e alertou até o mundo.

Também por isso a cabo Ester da Silva, lotada no 14º Batalhão de Infantaria Motorizada, e uma das mulheres envolvidas na expedição que simulou a operação de 1949, falou da honraria em fazer a subida do Morro do Cambirela.

“O desafio de subir até aqui envolve uma série de fatores, mas acima de tudo, a esperança de chegar até o topo. Fazer parte do Exército Brasileiro é uma honra uma vez que o segmento feminino é um número bem menor, mas fazer parte dessa expedição é comovente e vale cada sacrifício”, contou Ester.

Ela lembrou, ainda, a representação feminina e o quanto isso representa para o gênero, bem como às vítimas da tragédia.

“Fazer parte com esse grupo masculino traz para nós força, garra, empenho, coragem, disciplina. É muita gratidão por fazer parte desse grupo, por ser escolhida para representar não só as vítimas femininas, mas representar toda a nossa conquista durante esses anos”, acrescentou Ester.

Veja a entrevista da cabo Ester da Silva do alto do Cambirela

Entrevista com a cabo Ester da Silva, uma das únicas mulheres presentes na expedição que homenageou vítimas e soldados envolvidos no desastre do Morro do Cambirela – Vídeo: Diogo de Souza/ND

Da desesperança ao sentimento de conquista

O Grupo ND, representado pela equipe do Cidade Alerta e do repórter e apresentador Henrique Zanotto, conversou com um soldado que participou da missão, em 1949. Trata-se do seu Valdir Weiss, o então soldado Weiss, que hoje, aos 93 anos, de maneira lúcida, consegue reproduzir alguns dos momentos da operação.

“Naquela época, quando chegamos lá, já tínhamos previsto que não tinha mais sobreviventes. Ele [avião] bateu com a asa e os cadáveres já caíram tudo para o lado, a uns 100 metros da aeronave”, relembrou.

Lotado na enfermaria do 14º BI, o soldado Weiss admite que não chegou a “colher ninguém”, mas que foi até o local, voltou até o quartel e ficou a espera da chegada dos corpos e dos familiares.

Soldado Weiss relembra, em áudio, como foi chegar no topo do Cambirela. Ouça:

https://static.ndmais.com.br/2023/06/sonora-soldado-weiss.mp3

Outro personagem fundamental em toda a história é o autor do livro e montanhista, Silvio Adriani, que descreve a experiência da subida até o local como grandiosa:

“É sempre uma subida diferente da outra, é um sentimento de gratidão, de grandiosidade, de muita honra”, admitira em meio ao percurso de subida.

Calendário do BI

Mais que a honraria prestada a todos os envolvidos no episódio registrado há 74 anos, a subida do Morro do Cambirela passa a fazer parte do calendário de atividades do 63º Batalhão de Infantaria.

A informação foi confirmada pelo comandante Ciribelli à reportagem, lá no alto e ventoso ponto do Cambirela. Com 250 anos de “serviços prestados” o 63º BI passa a fazer da expedição uma rota inclusa no calendário do batalhão.

“É uma honraria e uma missão que todos que vêm aqui prestar seus serviços no nosso batalhão precisam passar. Passa a fazer parte do nosso calendário. Vamos subir aqui todos os anos”, assegurou o comandante que, até então, admitiu ter subido “umas duas ou três vezes”.

E você, o que espera para encarar esse desafio misturado com honraria?

Adicionar aos favoritos o Link permanente.